“Assim como as treze falas reunidas neste livro meticuloso e elegante, bem-humorado e amoroso, as cartas (dizia Lacan) sempre chegam ao destino. Como um balbucio, esses pequenos textos nos pedem para serem ouvidos, mais do que lidos. Ou, dito de outro modo, sua escrita desdobra-se em um movimento de escuta – voltado ao outro, portanto –, buscando traduzir nossos fragmentários tempos. As falas consumista, moderada, mitomaníaca, (in)crédula, pragmática, protagonista, jactanciosa, monológica, negacionista, solidária, imperialista, reacionária, lacônica (e quantas mais pudessem a elas se somar) permeiam umas às outras e imiscuem-se em nossas próprias vozes. No intervalo entre o que se diz e que se ouve, inscreve-se o ruído que se desdobra em múltiplas interpretações, ao mesmo tempo autônomas e encadeadas, possibilitando uma leitura entremeada pelas falas. Quer sigamos um percurso linear, quer escolhamos escutar os textos em uma ordem outra, as flutuações entre linguagem, memória e política surgem como fios a tecer a narrativa. Se toda carta é, de certo modo, uma fala consigo mesmo, um rumor que mobiliza os sentidos, as palavras de Jean Pierre Chauvin induzem o leitor-ouvinte a perguntar quem fala nessas falas – por vezes esperançosas, por vezes desalentadas –, mas sempre voltadas a futuros possíveis. Ao final da leitura, evidencia-se que o autor não esteve a conversar com as paredes. A expectativa é que esses diagnósticos reverberem e sigam em revoada, alcançando outros caminhos.”
(Rosana de Lima Soares)