Em 778, no desfiladeiro de Roncevaux, o conde Rolando tombou defendendo o exército de seu tio Carlos Magno. Esse fato histórico, em si mesmo modesto, se transformaria, três séculos depois, em uma das maiores epopeias da literatura ocidental: A canção de Rolando.
Mas por que a nobreza francófona dos séculos XI e XII investiu tanto nessa narrativa? O que ela queria dizer, e a quem? Essa análise textual tenta uma resposta a essas perguntas com rigor e sensibilidade histórica: a gesta não era entretenimento inocente. Era um instrumento. Nos seus 4004 versos, a classe nobre inscreveu um programa de comportamento, um código de honra, lealdade, fé e coragem, que legitimava seu poder e definia as fronteiras entre o cavaleiro idôneo e o traidor infâme.
Da análise do imaginário cavaleiresco à dissecção dos vícios e das virtudes de personagens como Rolando, Ganelon, Carlos Magno e Baligant , cotejados com o Livro da ordem da Cavalaria, de Ramon Llull , este texto oferece uma leitura da Chanson de Roland como documento político, social e moral de seu tempo. E mostra, ao fim, que os ideais que ela projetou, de honra, coragem e lealdade, ainda habitam o imaginário coletivo sobre o que significa ser justo e bravo; em suma, o cavaleiro perfeito.